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sexta-feira, 8 de maio de 2020

ANDRÉ VENTURA E O PROBLEMA DE CLASSE, E NÃO DE ETNIA

Bom dia pessoal. Então, sexta-feira, ao que parece. Portanto, análise sócio-política não é? Vamos lá então.

Há muito que desisti de diatribes políticas e futebolísticas no facebook. Noto-o nas memórias que o algoritmo protopidesco do Zuckerberg faz questão de me recordar dia-a-dia. Há uns anos em plena crise da troika e pleo fulgor benfiquista de Jesus mandava o meu bitaite regular sobre o dia-a-dia político e futebolístico.

Uso hoje esta rede social apenas para aquilo que devia servir: Ver vídeos de gatinhos e fazer spam à música que faço e que oiço e pouco mais relevante há para partilhar.

Não impede que, de vez em quando, esteja atento ao bolor de epifenómenos diários que o bafio estagnado desta rede social amiúde faz crescer.

Um fungo particularmente persistente é o epifenómeno André Ventura. Seria um cliché falar do racismo de ventura mas quando veio à tona a questão do plano de confinamento dos ciganos percebi que este não é só um problema de raça, é de classe. E muito do que está em causa em André Ventura não é só racismo, é também uma questão de classe. E neste caso dos ciganos está tudo com os holofotes apontados ao racismo.

Ou seja:

Como apareceu um vírus, ainda por cima comunista (é chinês e não olha a classes) que tem sugado toda a atenção mediática, Ventura tem lutado para permanecer à tona da água da relevância e tenta agarrar qualquer coisa que o faça vir parar aos títulos dos jornais.

Como não tem tido muita sorte em criticar o trabalho do governo relativamente ao modo como este tem lidado com a pandemia, volta-se para aquilo que lhe é familiar. Ciganos (ou o étnica e politicamente correcto, Romani). A última do André é um apartheid cigano.

Como as autoridades têm tido estado com dificuldades em fazer uma pequena comunidade cigana cumprir as ordens de confinamento Ventura, qual suricata sempre à procura do mínimo ruído, apontou todos os olhares para aquela oportunidade e veio com a ideia peregrina de arranjar um confinamento específico para a comunidade cigana.

Um apartheid, André, chama-se apartheid.

Adiante. Toda a gente se atirou ao ar a fazer-lhe as acusações habituais de racismo, fascismo, nazismo e já agora, boerismo, que seria a denominação correcta.

Ricardo Quaresma, futebolista de sucesso, cigano e essencialmente gajo da Meia Laranja, que tal como quem não se sente não é filho de boa gente, fez questão de se atirar a Ventura e recebeu um sem número de apoios e elogio relativamente ao racismo do qual, enquanto cigano, foi alvo. Enfim, o habitual.

Ora é precisamente a entrada da equação Quaresma que faz com que a questão da proposta de Ventura não se reduza a um problema de racismo. É, essencialmente, um problema de classe. E pode-se perceber pelos comentários dos seus apoiantes

O tédio do confinamento leva-me a coisas como ler caixas de comentários. Ora eu leio as caixas de comentários como quem abranda para ver um acidente de automóvel. Entretenimento mórbido, é o que há. 

Foi precisamente numa caixa de comentários que um dos apoiantes de Ventura chamou a atenção para um ponto de vista, numa frase que aqui muda tudo. 

Parafraseio:

"O Quaresma não tem direito a criticar nem a defender a comunidade cigana porque o Quaresma é rico, e quando ficou rico deixou de ser cigano"


Um rico deixa de ser cigano. Para além da dupla descriminação, racismo e classismo, isto demonstra uma questão no discurso de Ventura que vai muito mais fundo do que o simples populismo racista:

O problema para André Ventura não são os ciganos. São os pobres.

Porque no fundo Ventura é um burguês. O André Ventura, menino doutorado pela Universidade Católica, cristão, nacionalista, boas famílias, é o produto mais bem acabado daquilo que os mais empedernidos trotskistas apelidariam de "escumalha burguesa e a sua prole infecta".

Nesta limpeza de classe, Ventura começa pelos ciganos, porque são uma comunidade menor, mais fragilizada pela pobreza e esteticamente mais desagradável para o racista comum,  mas quando não houver mais ciganos para descriminar irá perseguir os negros. Mas os negros dos bairros sociais, não os negros das lojas Louis Vuitton da Avenida da Liberdade. O seu discurso, no entanto, apontará sempre o dedo a todos os negros. Excepto aos ricos, porque esses "não são negros". 
E depois, quando não houver negros e demais minorias pobres a quem o português racista comum aponte o dedo para lavar a água dos seus problemas do capote,  sobrarão os brancos pobres que o elegeram.

E aí perceberão  tarde de mais que a seguir são eles.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Don’t Forget the Joker (o resto são coninhas)

Aquando os meus primeiros contactos de frente com o álcool, o rock e os desgostos existenciais, no auge da adolescência inconsciente e antes de conhecer Schopenhauer, tinha um fascínio obsessivo, em muito alimentado pela visão cinematográfica do Oliver Stone, pela versão putas e vinho do Jim Morrison.
A ideia do eterno jovem numa constante espiral de rock, álcool, drogas, mamas ao léu, era algo que formatava o ideal do “estou-me a cagar para o mundo, quero é curtir” que estava disposto a adoptar durante o maior tempo possível ) o que no caso eram os Verões quentes da margem sul entre as idas à escola e ao curso profissional antes de ir ler existencialistas alemães para a FCSH).
Essa eternidade conquistada pela morte prematura de Morrison aos 27, fez-me aos 17, querer copiar o estilo de vida do rei lagarto. Só em teoria, como se vê, que a Amora não é Los Angeles. A ideia de imortalidade alimentada a drogas de uma vida que se interrompeu aos 27, fixou nessa idade mística um pressuposto de ascensão a mito de personagens maiores do que a vida que alimentaram o imaginário de muitos supostos rebeldes e livres pensadores, mas que no fundo no fundo foram uns coninhas.
Sim, Jim Morrison, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Bon Scott, "estrelas de rock eternas", ideal de juventude livre e o caralho, foram uns coninhas. o seu ideal de rock eterno, de eterna juventude é um ideal coninhas

Morreu hoje aos 70 anos o ideal rock com colhões. Feio, sujo, com verrugas e bafo a whiskey, não morreu de overdose, não deu um tiro nos cornos não se deixou embebedar e morrer afogado no próprio vómito.

Ian Fraiser Kilmister, Lemmy Motorhead de seu nome eterno, foi apanhado na curva à traição por um cancro sentado no sofá da sua casa a jogar jogos de consola
Lemmy aos 70 anos por questões de saúde teve de deixar de beber whisky, passou só a beber vodka A última vez que tinha dado um concerto tinha sido 20 dias antes de morrer e tinha os dois primeiros meses da agenda de 2016 dos Motorhead cheios com concertos ao vivo. 

Lemmy foi pai, avô, nunca parou de beber, fumar, foder, nunca parou de fazer rock em 50 anos de carreira, quase o dobro da vida das "lendas eternas". 

Dave Grohl sumariza a grandeza da lenda:
"Until then I'd never met what I'd call a real rock 'n' roll hero before. Fuck Elvis and Keith Richards, Lemmy's the king of rock 'n' roll – he told me he never considered Motörhead a metal band, he was quite adamant. Lemmy's a living, breathing, drinking and snorting fucking legend. No one else comes close"

Um bigode farfalhudo, um chapéu da confederação, uma verruga, um baixo, três acordes, a cabeça inclinada para cima a salivar letras simples arrancadas do coração. Compassos binários e quaternários ao triplo da velocidade das outras mariquices que se faziam e Lemmy não criou só o rock, criou o metal, criou o que é ser uma verdadeira lenda do rock.

nas palavras imortais do filme Airheads

Numa batalha entre lemmy e deus quem ganhava?
- Lemmy?
- Não!
- Deus?
- Errado. Pergunta rasteira...

LEMMY É DEUS!

terça-feira, 19 de maio de 2015

Se as pessoas ligassem a (inserir uma parvoíce ou causa qualquer) o que ligam ao futebol...

Uma das observações mais usuais ouvir-se e ler-se em alturas de festejos das conquistas das equipas de futebol é a seguinte:   "Se as pessoas se manifestassem com tanta energia com que se manifestam por causa do futebol..." "Ou com as causas do país não gastam tanta energia"  Fico a pensar.

O que seria se as pessoas se preocupassem com causas políticas da mesma maneira que se preocupam com o futebol. Tínhamos coisas do género:


- Debates políticos em estádios com 65000 pessoas a assobiar e gritar "filho da puta" de cada vez que um dos políticos adversários falava. O mesmo para o moderador de cada vez que interrompesse porque estava a acabar o tempo.
"Acabou o tempo o caralho! Estás é comprado, filho da puta!"

- Pessoal nos cafés, bêbedos que nem cachos a debater os prós e contras das políticas económicas expansionistas versus políticas de austeridade e cortes de investimento. Isto à volta de uma pratada de caracóis. Inevitavelmente a liberalização do mercado de trabalho redundaria num
"A puta da tua mãe, os Juízes estão é todos comprados. É o colinho constitucional".

- Votações sobre o aborto e o casamento homossexual ilustradas com os adeptos vestidos a rigor com cachecóis e camisolas de cores diferentes. Nas vitórias nos referendos, os adeptos da IVG iam para o Marquês andar às voltas com o carro, pendurados nas janelas a gritar
"Oh feto, vai pó caralho... oh feto, vai pó caralho.

Invariavelmente todas as eleições acabavam à porrada com a Polícia a varrer tudo à bastonada.

É isto que querem ver com pessoas a sentirem as causas políticas como sentem o futebol...


Ah... espera... Na verdade...

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

A expressão em liberdade.

Há muitos equívocos, muito histerismo, muito julgamento prévio, muita reacção acerca do que aconteceu ontem, numa amálgama de informação e opinião que só as redes sociais toraram possível.

Há vários pontos aqui. O primeiro a salvaguardar é que a barbárie de ontem não se compara à barbárie da desproporcionalidade dos ataques israelitas a Gaza que fizeram uma contagem de mortos criminosamente desproporcional. 2154 palestinianos, dos quais 352 foram crianças contra 68 israelitas, a maior parte soldados, nenhuma criança.

Numa matemática pura a morte de 352 crianças é infinitamente mais bárbaro do que a morte de uns quantos velhos brancos que fazem bonecos num 
arrondissement de boa vizinhança em Paris..

A fronteira e a diferença entre estas duas situações será caso para ser discutida ad infinitum pelos especialistas de rede social enquanto comem um donut em frente ao PC ou defendem a sua causa num qualquer portátil Apple.


A outra questão que se coloca com o que aconteceu ontem. O atentado à liberdade de expressão.


Para muitos o Charlie Hebdo era um jornal racista, xenófobo, misógeno. Era também tudo isso sim. E outros defendem que cartoonismo não é jornalismo. de facto não é. Nem foi propriamente um atentado á liberdade de imprensa como o é o rapto a decapitação de jornalistas na Síria. Não tem a ver com isso. tem a ver com a liberdade de expressão. Os cartoons do Charlie Hebdo ofendiam? Sim, eram xenófobos? Muitos, sim. Mas defender o direito á liberdade de expressão na nossa sociedade tem a ver com isto:

É defender o direito a poder esticar a liberdade de expressão a limites para além do razoável e deixar a sociedade decidir em sede prórpia e entre si quais os limites do razoável.

O direito a ser-se uma besta, um filho da puta ofensivo, xenófobo, misógino e a ser-se julgado e criticado pelos próprios pares, sociedade e tribunais de um estado de direito, e não por uma bala.
É uma expressão e é feita em liberdade. Posteriormente, e dentro das regras definidas pela sociedade é que se julgará se foi ou não um abuso da liberdade de expressão. 

Eu tenho a liberdade de chamar filho da puta ao Cavaco, ele tem a liberdade de se ofender e processar-me, mas nunca de me impedir de o chamar filho da puta. Muito menos de enviar um comando armado para me matar.

Enquanto não se perceber isso não se perceberá o que aconteceu ontem e o que se diz hoje.


quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

O direito inalienável de poder desenhar Maomé ou Jesus a levar no cu



O que aconteceu hoje foi uma barbárie. Não maior do que um radical cristão que puxa fogo a uma clínica de abortos no Tenesse ou um norueguês tresloucado a varrer indiscriminadamente um acampameno de jovens socialistas. Todos pertencem a uma corja sub-humana que não é capaz de ter um pingo de compreensão e tolerância pela diferença de visão e opinião.

A diferença está que os ataques radicais cristãos ou de direita são feitos no extremo dos valores ocidentais, os quais, dentro da gramática cultural ocidental, são controlados e balizados por aquilo a que designámos como secularismo e são uma distorção extrema das regras por nós criadas.

Os ataques islamitas radicais não estão nas franjas da nossa civilização nem são uma distorção desses valores. Estão em afronta directa e oposta a esses valores.

Outra questão, não com menos importância, é a seguinte. Há que fazer a partir de agora uma escolha.

Muitos defenderam hoje com unhas e dentes o direito do Charlie Hebdo de ter publicado os cartoons satíricos, considerados ofensivos por muitos, se não todos os, muçulmanos (com a salvaguarda da reação de uma minoria ter sido diferente da maioria).

Ao fazê-lo não se poderão esquecer que o Charlie Hebdo publicava capas como esta:


http://cdn.controlinveste.pt/storage/DN/2015/big/ng3830539.jpg
Os cartoonistas do Charlie Hebdo não desenhavam Maomé para provocar islamitas, desenhavam Maomé e quem lhe apetecesse, porque esse é o valor da democracia ocidental.

O podermos rir connosco próprios e com os outros, sem medo. O direito a poder ofender e poder ser ofendido, o direito a podermos defender a nossa honra e liberdade.

É a este extremo que temos de levar o nosso direito. Quando dizemos somos Charlie dizemos, somos o direito de  de poder desenhar Maomé nu a lavar a loiça, Jesus a levar no Cu, o Cavaco a lamber os tomates.

E só seremos todos Charlie se amanhã continuarmos a aceitar todos os cartoons, e não apenas aqueles sobre Maomé ou muçulmanos.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

O crime de andar nu

O #thefappening mostrou duas coisas.

Primeira, que a privacidade na internet é coisa que não existe e nem foi preciso este acontecimento para se saber isso. Segunda, e especialmente em Portugal, que há uma espécie profusa de moralistas a habitar as caixas de comentários e que não sabem muito bem exatamente como é que certos conceitos funcionam.

Agora de repente, o ónus do crime não está no roubo e no assalto à privacidade mas sim no andar nu em casa e tirar fotografias. A "culpa" é das pessoas que andam nuas em casa e tiram fotografias a elas próprias e os heróis são os criminosos que roubaram essas fotografias e expuseram essa "imoralidade".  É uma coisa que em Portugal já existe há muito que é julgamento moral da privacidade dos outros. Normalmente só existe até a própria privacidades er posta em causa. E depois descobrem-se coisas engraçadas. Mas adiante.

Podemos argumentar que não foi o mais inteligente guardar essas fotografias na iCloud mas a Apple sempre se arrogou de não ser vulnerável a vírus ou ataques. A responsabilidade da segurança é da empresa que disponibiliza o serviço. Pois bem, é como as outras, redundam sempre na desculpa, "escolha uma password melhor". O disclaimer do serviço devia ser o seguinte:

"Oiça, não é l´amuito seguro colocar aqui as suas fotos mas é livre do o fazer. O máximo que pode acontecer é ir para com as mamas à internet. Não nos responsabilizamos. era mais honesto. Adiante...

Agora cabe aos seus clientes decidir da segurança da iCoud a partir daqui. Resta saber o abalo que poderá provocar ao mito da Apple. Mas esses são outros quinhentos.

Ora, desse argumento não podemos inferir culpa de quem, na privacidade da sua casa, decide despir-se, para si ou para alguém da sua confiança, e fotografar. Por narcisismo, por ensaio artístico, por fétiche ou só porque sim. Pode fazê-lo. Está na sua casa. Fotografar-se nu ou a fazer sexo não é crime. É só fotografar-se nu ou a fazer sexo. Não é mais crime do que as pessoas fotografarem-se na latrina a arrear o calhau. Mas aposto que se em vez do #thefappening houvesse um #thedumpening não tínhamos estes moralistas todos à perna.

Deixar cair as fotografias na net pode ser uma má consequência da boa fé ou só de parvoíce mas não deve ser visto como um ónus para a culpa ou responsabilidade de quem tirou essas fotografias. Esse é um ato privado e a sua publicação, a partir do momento em que é decidida por terceiros, não torna essas fotografias do domínio público. Podem ter-ser tornado públicas mas não do domínio público. Continuam a ser do foro privado tal qual eram antes.

Gostaria de saber se essas pessoas que vêm para as redes sociais acusar a Jennifer Lawrence de imoralidade ou dizer que é bem feita por ter-se fotografado, também usariam do mesmo argumento se um dia chegassem a casa e a sua cara metade estivesse tranquilamente a fazer-lhes um felatio mas tivessem deixado a porta aberta e eu estivesse lá na porta da sala a assistir de pila na mão e eu dissesse: "Na, não deixasses a porta aberta, agora acaba lá isso se faz favor" também concordariam comigo.

Essa pessoa não devia estar a fazer sexo ou não devia ter deixado a porta aberta? Nem uma nem outra. Eu não devia é ter entrado. Mas pelos vistos ninguém compreende isso.

Já agora, estou a escrever este post nu e a filmar para o meu disco rígido. Querem-me vir cá prender?

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

A overdose de Eusébio e o vício da televisão

Declaração de intenções. Sou do Benfica. O que significa que o que vou escrever pode-se aplicar a qualquer outro epifenómeno de cobertura televisiva de funerais públicos que tanham acontecido ou possam vir a acontecer mas escrevo do que me toca diretamente. Aconteceu o mesmo com a Amália, com o Papa, com o Mandela, com o Senna no Brasil mas como não sou fanboy da Senhora Dona Amália nem Católico e, apesar de ter sido fã de Senna, já faz 20 anos que ele morreu, falo do grande Eusébio porque sou do Benfica e ontem deixou-nos o nosso maior símbolo.

Desde que, no domingo de manhã se soube da notícia da morte de Eusébio, que os três principais canais entraram e modo exclusivo e durante 48 horas, quer os canais em sinal aberto , quer os canais de notícias do cabo, praticamente se dedicaram em exclusividade à cobertura do velório, do cortejo fúnebre e inundaram o tempo de antena com o Toni a repetir em loop as suas experiências com o Eusébio. Apesar de Eusébio ser uma figura mais consensual que as outras e ter unido mais ou menos a nação à volta da sua morte, ainda assim, e isso é permitido com mais facilidade pelas redes sociais, surgiu o habitual coro de vozes contra a overdose de cobertura do evento, com os argumentos habituais: "Era só um jogador de futebol"; "Não era suficientemente importante" ou o simples, "Não há mais nada de importante do país para noticiar?", etc

Isto diz-nos uma de duas coisas ou as duas.

Primeiro:
As pessoas estão de tal forma dependentes de uma rotina de televisão ou de uma dose diária de fait divers variados, passe o pleonasmo, que qualquer coisa que quebre essa rotina as deixa num estado de privação:

"Então, só dá Eusébio? E as mortes pelo mau tempo? E o governo para falar mal? E a fome em África para eu sentir pena dos coitadinhos? E a Cristina Ferreira para me dar tesão?" Esta é a conclusão que posso retirar de quem tem cabo com uma média de 120 canais a debitar inanidades 24 horas por dia e que se queixa de o Eusébio aparecer em 3 deles apenas durante 48 horas.


A segunda é o habitual:
Mesmo que não tenham cabo (e a cobertura total foi dada no cabo, nos canaios abertos foi apenas parcial) as pessoas não conseguem desligar-se da TV. Embora o mundo exista lá fora, ou até arrumado nas prateleiras de casa para quem tem livros e gosta de ler, a TV continua a ser a caixa onde todos se agregam à volta.

Mesmo para quem tem internet (e a internet para mim torna a TV algo secundário) é da TV que as pessoas se queixam. Este fenómeno existe porque ninguém se pode queixar da internet. É absolutamente livre. A internet é o que eu quiser que ela seja mas as pessoas continuam a querer que lhes enfiem conteúdos pelas goelas abaixo e essencialmente querem queixar-se dos conteúdos, embora sejam completamente livres de não os consumir.

Outro fenómeno que surge quando alguém morre é o das vozes que se lembram de trazer todos os podres do personagem à baila.

De repente somos um país de imaculados...
 

Houve depressa quem tenha lembrado que o Eusébio tinha como melhores amigos o whiskey e o putedo.

Era um bêbedo e ia às putas, olha a admiração. E até provavelmente foi isso que o matou. Foram as suas escolhas, teve as suas consequências. Esse era um problema dele e só dele.

Se ontem as elegias fossem por ele ser um putanheiro era a estátua do Zezé Camarinha que estava no Estádio da Luz.

Se quiserem também podemos fazer uma estátua de bronze ao Eusébio putanheiro, já que está tanta gente a falar dessas suas qualidades. Com um copo de whiskey na mão e uma puta a fazer-lhe um bico. Era bonito.  

Podem ter a certeza que não era nem o maior putanheiro nem o maior bêbedo deste país. Para esse lugar haverá um rol de gente na fila à sua frente para que lhe seja erguida uma estátua dessas.

O que ele era, foi e será para sempre, é o maior jogador de futebol deste país. Foi isso que se celebrou ontem.

Tudo o resto é história acessória que escolhe ver quem não lhe quer reconhecer o talento e o génio.

Quanto ao pessoal que se queixa da overdose de Eusébio... as operadoras de TV por subscrição têm 146 canais. Quem não tem cabo ou afins, desligue a televisão, compre um livro, veja pornografia na internet, beba um whiskey, vá às putas.

Eu sei que consegui fazer a maior parte dessas coisas ontem e ainda assim acompanhei o funeral do Eusébio.

Bem hajam

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

A obscenidade

Anda tudo em alvoroço no mundo docente pelo facto de os professoresn contratados com menos 5 anos de docência terem que fazer uma prova de avaliação de conhecimento e competências.

Os Professores, como diz bem o João Miguel Tavares no Público de ontem, são a mais poderosa corporação do país, e um grupo que varre ministros pela base como uma ceifeira colhe trigo. Há de haver um dia um ministro que lhes faça frente. Esse ministro não será Nuno Crato.

Não vou aqui dsicutir o mérito ou demérito da prova nem a sua necessidade ou não. Vou apenas chamar a atenção para a obscenidade latente da sua consequência.

Uma prostituta velha e gorda, nua e cheia de varizes a lamber banha de porco de um pénis erecto de um gorila albino não é obsceno, é exótico.

Isto é obsceno:

Segundo percebo pelo artigo 2º do Decreto Regulamentar nº 3 de 2008, no qual se baseia a atual prova, a prova serve para aferir das condições de recrutamento para os agrupamentos de escolas, ou escolas, públicas.

Basicamente, se um professor quiser ser contratado pelo Estado, tem de fazer esta prova.

Se chumbar deixa de ser elegível para colocação numa escola pública.

Certo.

Mas pode ser tranquilamente contratado por uma qualquer escola privada.

Ora imaginemos que esse estabelecimento de ensino privado contrata esse professor - que o Estado não quis - e tem um contrato de concessão com o Estado ou tem alunos que beneficiam do cheque ensino.

Esses alunos vão ter aulas com um professor a quem o Estado não quis pagar por não lhe reconhecer competências para dar aulas.

Mas vai dar aulas e receber dinheiro por isso numa escola a quem o Estado paga mais barato e que aceita perfeitamente ter como professores aqueles que o Estado tratou como refugo.

Isto é a PACC.

Isto é obsceno.

Vâo levar no cu, que é menos obsceno.




quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Estou-me, normalmente, a cagar para a Margarida Rebelo Pinto. Mas hoje...

Estou.me a cagar para a Margarida Rebelo Pinto.

Esclarecido este ponto, escrevo sobre ela porque, num assomo da lucidez que me ajuda a levantar todos os dias e a vir trabalhar, percebi que, quando um galho seco solitário e mal fodido vem à televisão mandar bitaites, ele é ouvida por milhares, que, distraídos nas suas vidas quotidianas, não diferentes da minha, podem até levar a sério o que o galho seco diz.

O galho seco normalmente diz parvoíces. Não é novidade. E as parvoíces do galho seco não me fazem grande mossa, assim como o barulho de um escaravelho a rebolar uma bola de estrume me faz mossa. Portanto, as discorrências do galho seco sobre a existência, os romances, as badochas ou a política nacional, são-me proporcionalmente relevantes quanto o ruído de uma mosca a sorver com o seu probóscide a superfície de uma feze o é.

Como já deu para perceber, a minha atenção ao que o galho seco diz não dá para muito mais do que um ou dois parágrafos de escatologia entomológica.

No entanto, a distraída audição da idiotice da semana do galho seco, que não é nem mais nem menos idiota que as outras idiotices habituais, apanhou-me hoje num contexto diferente.

Quando, na circunstãncia do meu trabalho, tenho homens, cuja vida foi destruída pelo duvidoso dever pátrio da Guerra Colonial, a confessarem-me as tentativas de sucídio ou os horrores que foram levados a cometer numa mata qualquer na Guiné, ao mesmo tempo que estou a paginar um pedido de ajuda de géneros para as famílias desses homens que estão a passar fome, as barbaridades do galho seco fazem-me uma impressão ligeiramente mais incomodativa.

Se hoje de manhã estes homens estão aqui a confessarem as dores à laia de desabafo em vez de estarem a atirar.-se do sétimo andar ou a espancar a mulher porque pensam que ela é um turra, é porque houve alguém, um dia,que fez barulho, que incomodou governos, que reivindicou direitos, que gritou e impediu outros cidadãos de irem trabalhar e essas exigências deram frutos. Hoje têm legislação que os reconhece e associações que os protegem. Não é perfeito e muitas dessas conquistas estão de novo em causa, o que leva a que não se calem, não se fiquem, e continuem a lutar por aquilo a que têm direito.

Este é um dos princípios básicos da democracia.

Mas para o galho seco nada disso é importante.O importante é não incomodar o governo. Aliás, quem incomoda o governo não tem inteligência, tem falta de civismo e sente repulsa e pena de quem se manifesta.

Duvido que Margarida Rebelo Pinto tenha alguma vez sentido repulsa a sério.

Repulsa sente-se quando um oficial superir ordena que se mate uma criança porque está a chorar e pode revelar a posição ao inimigo. Repulsa sente-se quando o unimog onde segue vai pelos ares porque um qualquer traidor do quartel colocou uma mina e matou metade do pelotão. Repulsa sentem estes homens que viram as suas vidas destruidas e agora não conseguem ser ressarcidos por causa de burocracias e tergiversações dos governos que Margarida Rebelo Pinto sente pena por serem incomodados.

Como escrevi, com excepção das condicionantes de hoje aqui descritas, a MRP não me faz mossa alguma. 

Não chega a ser uma "that bitch i love to hate". Não tem alcance intelectual para tal. Nessa categoria coube em tempos o Luís Delgado e hoje em dia o Henrique Raposo.

Mentes venenosas que, embora intelectu
almente desonestas, servem a propaganda de uma agenda política que está nos antípodas do que defendo e quero que continuem a escrever para serem alvo do meu ódio de estimação. É gente que, um dia que se formasse uma República Bolchevique Lusitana, estariam na fila da frente para serem abatidos a tiro na nuca pelo comité revolucionário na Praça do Comércio e estaria lá para premir o gatilho.
 

A MRP não faz parte desse lote.

A MRP é um epifenómeno pop que mal ocupa o papel de putinha do regime, como por exemplo faz tão bem uma Anne Coulter com os Republicanos. A MRP queria ser a putinha do regime só que ninguém lhe liga, muito menos o regime.


Como não quero entrar no insulto gratuito, aqui termino a minha crónica de hoje e volto à minha escatologia habitual relativamente ao galho seco.

Bem hajam.




sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

A Banca "aguentada" pelo contribuinte

Já percebi o mal da Europa e do capitalismo europeu. O Capitalismo Europeu é capitalista enquanto tem o guarda chuva dos estados. Nos Estados Unidos um capitalista não se vira para o seu concidadão e advoga a sua pobreza. O capitalista norte americano vira-se para o seu concidadão e diz.

"Dá-me o teu dinheiro que eu faço-te mais rico e se eu o estourar todo é realmente um problema teu porque tu deste-me o teu dinheiro de livre vontade e é essa a nossa liberdade, a de nos explorarmos mutuamente até à miséria de um e a abundância do outro, ad infinitum, sem que ninguém, muito menos o Estado, tenha alguma coisa a ver com isso."

Quando o Bush salva a banca em 2008 houve uma resistência ideológica a esse resgate "É o comunismo" diziam os banqueiros da velha guarda. A vontade dos banqueiros sobreviventes é que se deixasse cair a banca que não foi capaz de sobreviver à crise e os mercados reequilibrar-se-iam por si só. Claro que se estavam nas tintas para o dinheiro perdido pelos depositantes e investidores, porque segundo os norte-americanos foram livres de o fazer e conheciam os riscos.

Um capitalista na Europa (onde se nacionalizam bancos que estão a dar raia por dá cá aquela palha - ainda hoje a Holanda nacionalizou mais um que andou a queimar dinheiro - os capitalistas viram-se para o povo e dizem.

"Dá-me o teu dinheiro que o vou usar a bel prazer e se esta merda for pelo cano abaixo, toca a ficar sem saúde, educação, segurança social e a fazer sacrifícios no ordenado para ajudar o Estado a pagar a merda que nós fizemos"

Fernando Urlich, com o seu discurso do "Aguenta, aguenta" é o espelho acabado dessa ideologia. Um capitalismo alicerçado duas vezes no dinheiro dos cidadão. Primeiro no dinheiro que a eles lhes é confiado e em segundo lugar alicerçado nos impostos que pagamos ao Estado para poderem ser recapitalizados quando as má gestões deitam milhares de milhões pela sanita (com um desvio estratégico para algumas contas na Suíça e nas Caimão).

É fácil ser banqueiro em Portugal quando se tem o dinheiro do Estado (dos contribuintes) para almofadar a gestão arbitrária. Por isso é fácil dizer "Ai aguenta, aguenta" porque se não aguentam os bancos não têm dinheiro para funcionar.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Liberdade e opções

Relativamente ao massacre em Newton, Connecticut nos Estados Unidos, e nesta questão específica das armas e da saúde mental, e evitando as reduções a categorizações unilaterais e nexos de causalidade simplistas, o que os Norte Americanos têm de perceber é que aqui está uma questão do preço que eles querem pagar para terem as suas liberdades.

Mais do que apontar o dedo à sociedade, a uma doença mental específica, ou até à política externa norte americana (no caso do Michael Moore no Bowling for Columbine) a cada massacre que acontece, é necessário ver isto como um caso de opções e estatística.

A defesa da Liberdade Religiosa e do direito a usar armas dado pela constituição norte americana é um direito tão fundamental para aquele povo que a sua inaliabilidade é tão ao mais fundamentalista que a nossa reivindicação sobre os nossos direitos adquiridos da saúde e da educação. De tal sorte que, a haver acontecimentos trágicos ou contradições que advêm das consequências diretas ou indiretas da aplicação desses direitos, a causa desses eventos é sempre exógena, quer ao povo quer à lei. O argumento habitual é “as armas não matam pessoas, são as pessoas que matam as pessoas”

Entra aqui a primeira questão: estatística.

Pessoas. As pessoas são uma massa disforme e sem cérebro. Uma pessoa é boa, duas pessoas são boas, uma massa disforme de inúmeras pessoas é o caos. E os norte-americanos são muitas pessoas. O problema é que toda a sua estrutura mental e consequente redação da constituição e das leis está virada não para a defesa das pessoas mas sim do indivíduo. Apesar da constituição definir o direito às pessoas usarem armas, a interpretação é que o direito é de cada um usar armas. O problema é que nos Estados unidos são cerca de 300.000.000 de "uns".

É portanto estatisticamente muito improvável que dentro desses 300.000.000 não exista um “um” que não seja mentalmente desequilibrado sou simplesmente ache que todos os que são diferentes dele devam morrer às mãos de uma gloriosa descarga de um clip de uma HK416. E se existe um, provavelmente existem umas boas dezenas de milhar, se não centenas, ou então, a dado momento da vida e em determinadas circunstâncias, cada um dos 300.000.000 de norte americanos.

Logo, se se distribui livremente armas a uma população que estatisticamente pode ter entre si não um assassino em massa em potência, mas centenas de milhares, é estatisticamente provável que volta e meia um desses tipos tenha acesso a uma arma e que descarregue tranquilamente o clip em cima de uma dezena de transeuntes, criancinhas ou não. As estatísticas normalmente, embora arbitrárias, têm razão. E as estatísticas dizem que os americanos matam-se uns aos outros por desporto e numa base regular.

Chegámos à segunda questão: opções.

Dizia no início que não queria ser simplista mas acabo por chegar a uma conclusão simplista. O principal problema dos norte americanos relativamente às armas tem somente a ver com o facto de não quererem, acima de tudo , que lhes tirem a liberdade de ter e usar uma arma. Isso para eles é fundamental. Mas a estatística diz que essa liberdade tem um preço. E é essa opção que têm que fazer. Manter a liberdade de cada um dos cidadãos norte-americanos em usar armas livremente tem o custo das mortes aleatórias numa base regular.

Se os atiradores estão doentes, são autistas, estão fartos dos colegas de trabalho ou achem que os seus concidadãos não merecem respirar o mesmo ar, é secundário, quando a eles - antes de tudo o que são ou possam vir a ser - ao abrir uma conta bancária lhes é oferecida uma caçadeira.

Podem optar em continuar a ter a sua AR-15. Mas por isso pessoas irão morrer.

É uma opção. Resta saber se sabem viver bem com ela.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Jornalismo do MInistério da Verdade

O Sol é o Avante! (do governo português? do governo angolano?). Não dá notícias. Cria uma realidade própria de modo a que a realidade se tenha que adequar ao que já está escrito.

De repente, o Portas já aceitou qualquer que seja a decisão
sobre a RTP (mas não se livrou dos submarinos) e um gajo que na RTP ninguém sabia quem era, que nunca teve nada a ver com serviços públicos e que ainda nem sequer tomou posse, já tinha atrás de si um estigma que, mesmo sem ter tomado posse, já contrariou através do seu "prestígio".

E sem ter feito ponta de corno pela RTP, nem se saber qual o resultado da sua futura gestão, a próxima administração, que pelos visto já está decidido que será concessionada, irá mantê-lo como administrador.

É a escola George Orwell. O passado é o futuro. A história escreve-se adiantada disfarçada de presente. O SOL é um dos gabinetes do Ministério da Verdade do 1984. escreve a história antes de ter aocntecido

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Um carro no fundo de uma ravina com uma série de gente morta dentro.

Quando o nosso carro, velha carcaça acabada, ainda aguentou uns solavancos lá para o ano de 1974, acabou de desfazer-se em 1982. Foi quando uns senhoras da Europa nos deram um carro novo lá para o ano de 1986.

Durante 30 anos o nosso carro aguentou-se. O carro, que era um carro bonito, sólido e agradável de habitar, teve uma série de condutores que, apesar de não saberem conduzir lá muito bem, e muitas vezes conduzirem alcoolizados, nunca nos atiraram por uma ravina abaixo.

Tinham era um grave problema: era pessoal do tuning.

Ora, o pessoal do tuning, para além do seu duvidoso gosto estético, endémico a quem pensa que percebe muito de determinada coisa e, para disfarçar, enche-se de iconografia e demais bugigangas relativas a esse assunto, até que o seu interlocutor se sinta de tal modo ofuscado pelo exagero que não faça muitas perguntas, tem ainda o vício de quitar o carro com coisas que são muito vistosas mas na prática não servem para nada.

E foi vê-los, uns após outros, deslumbrados com o equipamento que os anteriores deixaram, numa sofreguidão de "o meu ornamento de capô é maior que o teu ornamento de capô, a quitarem o carro com cada vez mais escapes de rendimento, alleirons, estofos de cabedal, bancos aquecidos, sistemas de combustível a nitrogénio, GPS de última geração e até, um ou outro, uns dados felpudos para pendurar no espelho retrovisor.

Durante 30 anos o nosso carro foi sendo equipado com tudo e mais alguma coisa, útil e inútil, de tal modo que em 2004 o carro parecia estar no seu auge de equipamento e potência.

Só que os condutores tinham outro problema. Deslumbraram-se com o carro que contruiram mas esqueceram-se que tinham que usar o carro para levar os seus passageiros a algum lado. E neste deslumbramento limitaram-se a conduzir um bólide sobreequipado em círculos.

Com este equipamento só dava vontade de pregar o pé no fundo. E, apesar de a sua condução não levar a lado nenhum,  não primavam pelo cuidado com o material. Condutor após condutor, usavam o carro como se fosse um NASCAR de competição. Ele era primeiras a fundo, em que cada arranque despachava meio depósito de gasolina, ele era derrapagens apertadas, rotações a bater no vermelho, travagens a deixar borracha no alcatrão e choques com os carros do lado para os ultrapassar.

Mas aos poucos a gasolina ia-se gastando, os pneus começavam a ficar carecas, as pastilhas de travão a começarem bater no ferro e a chapa a caír aos bocados. A pouco e pouco ia-se descobrindo que muitas das jantes vistosas e alleirons de competição, pouco contribuíram para o modo geral de como o nosso pobre carro era conduzido, muito menos para um destino que nos fosse útil ou rentável.

Ainda assim, entre tantas peripécias e solavancos, nós, os passageiros, nunca nos sentimos inseguros, nem nenhum dos seus condutores nos tentou atirar de encontro ao muro ou em sentido contrário de frente para os adversários. Era gente que sabia mais ou menos conduzir, mesmo que em círculos.

Só que esqueceram-se que não tinham dinheiro para pagar a conta. E o pessoal das garagens e revendedores de peças, gente que não prima propriamente pela cortesia e urbanidade, adjectivos difíceis de qualificar a partir de fatos de macaco oleados e chaves sextavadas, começaram a exigir o pagamento. Em segredo, os condutores meteram-se com uns agiotas alemães que prometiam juros baixos para pagar aos tipos dos escapes e dos pneus.

Inevitavelmente, e após tantos anos a andar a gastar gasolina, pneus e travões sem nos levar a lado nenhum, os fornecedores começaram a bater à porta, os agiotas começaram a cobrar juros mais altos e tivémos que expular os condutores.

Contratámos uns condutores novatos, cheios de ideias, que a primeira coisa que coemçaram a fazer foi pedir desculpa aos agiotas e a pagar aos fornecedores. Com uma contrapartida. O carro tinha de ser completamente limpo. E vai daí toca de tirar os alleirons, os escapes de rendimento, os vidros fumados, as jantes especiais. Entusiasmados com a sangria, também começaram a tirar a direção assistida, os travões ABS, os vidros eléctricos, o ar condicionado, ao autorádio. Curiosamente deixaram os dados felpudos no espelho retrovisor

Limparam o carro de tal maneira que o deixaram muito parecido com aquele que tínhamos em 1974.

Depois da limpeza, lá se sentaram ao volante. Foi quando descobrimos horrorizados que estes novos tipos não sabem conduzir. Assim que meteram a primeira, saíram da estrada esbaforidos e em pânico, rebentaram com os muros e seguiram directos a um penhasco.

E será assim que nos irão encontrar no fundo de uma ravina.

Um carro desfeito só com quatro rodas, assentos de pano e uma série de gente morta dentro.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Ainda a marca "Salazar"

Ainda a marca "Salazar". Acho que na verdade ainda não se viu bem o potencial da coisa. Se se registar o nome como uma marca, podemos usar essa marca para qualquer produto.

Produtos esses que também podem apelar aos anti fascistas.

Pode-se por exemplo criar um papel higiénico marca "Salazar" com um relevo macio da cara do Sr. Presidente do Conselho em papel de folha tripla.

Mais iniciativa comercial e menos questões políticas é que é preciso. Este senhor é um idiota mas também pode ser um visionário. Depende de quem bebe vinho ou limpa o cu.

sábado, 10 de março de 2012

Kony da mãe...

Serei o único que nunca viu o vídeo do Kony, não sabia puto do que era, do que estava em causa, nem tão pouco no meu tranquilo quotidiano imaginaria quem raio era tal personagem e que havia um vídeo que colocou meia internet em histeria e quando finalmente tentei saber o que era, afinal já era uma fraude?


Pelo que percebi havia um tipo parecido com o Ken, que tinha um filho loirinho com Barbie e o míudo não sabia que havia niggaz em África que se matavam uns aos outros. Assim pediu ao papá para salvar um deles, que não se sabe bem como, tinha perfil no facebook ao mesmo tempo que fugia de balas de um outro nigga mau. Mas de repente o Ken afinal andava-se a fotografar de kalashnikov para sacar umas massas. Tudo isto em três dias...

Damn you internetz. Too fast for me...

Ao menos o porno mantém-se consistente ao longo das décadas, desde a película, passando pelo VHS e acabando em streamings em Flash.O que era verdade num par de mamas ontem continua a ser verdade no mesmo par de mamas hoje e um cumshot há-de ser sempre um cumshut.

Digo-vos, as únicas imagens dignas de confiança na internet têm sempre uma gaja nua e um tipo vestido de técnico da TVCabo

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Gostas cabrão?


Declaração de intenções: Hoje é segunda feira, e de manhã, por isso o post é ligeiramente, mas só ligeiramente, mais azedo.

Dedico esta postagem ao velhinho que, numa tarde de março de 2006, imediatamente após à eleição de Cavaco Silva para o seu primeiro mandato, e claramente ressabiado por estar um socialista no governo, declarava em alto e bom som para os restantes utentes do autocarro da TST (que hoje já não existe, desde que foram cortados a metade entre a Amora e Cacilhas):

"Agora é que esta gente vai ver, agora é que vão aprender" - numa alusão à subida de Cavaco ao mais alto cargo da nação.

Pergunto ao velhinho, que não sei quem era, onde quer que ele esteja agora:

- Gostas cabrão? Estás a gostar de estar de joelhos e de boca aberta enquanto o Cavaco te urina em cima cabrão? Gostas tanto que a seguir baixas as calças e voltas-lhe o cu.

Bom dia.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

2012: um nado morto.

Com a aproximação do  Natal e do fim do ano começam as trocas de e-mail e as postagens nas redes sociais de mensagens e imagens de boas festas. No Natal, os poucos cristãos que por aqui andam, pelo menos aqueles ainda com a coragem de se assumirem quanto tal, ainda vão lembrando os restantes que a época tem essencialmente a ver com a comemoração do nascimento de um tipo judeu que há dois mil anos tinha uma mensagem de paz para a humanidade. Basicamente, o nascimento de um tal tipo judeu que, como ninguém lhe ligou pevide, deixou-se pendurar numa cruz num acto de altruísmo masoquista e morreu pelos pecados daqueles que não os assumiram.

Só que, acto contínuo, a humanidade esteve-se nas tintas, encolheu os ombros e continuou a sua vidinha. O judeu fartou-se, ressuscitou três dias depois e pirou-se para onde veio e nunca mais ninguém ouviu falar de tal criatura. Dos que cá ficaram, aproveitaram-se da estória e pegando num obscuro ritual pagão elevaram  o simbolo do nascimento do judeu masoquista a ritual teísta reciclado que serviu de desculpa para arrastar a humanidade para mil anos de trevas e domínio homicida.

Hei, mas ao menos todos levam um par de meias novo a cada inverno.

Mas chega de exegese alternativa. Como pagão que sou, comemorei o solistício de inverno como deve ser. Com Baco à porrada com Dioníso numa taberna, devidamente representados por duas garrafas de vinho e o meu fìgado.

Para os restantes não cristãos e não pagãos a aldeia global, a simbologia da época queda-se pelas habituais mensagens cibernéticas de festas felizes e próspero ano novo, normalmente ilustradas com bonecada pobremente amanhada em lettering mal desenhado por fracas competências em photoshop. Um dos clichés mais recorrentes é o de Ano Novo, Vida Nova, ou o sempre inovador um "ano cheio de paz e prosperidade". OU então a sempre esperançosa "Que 2012 seja melhor que 2011"

Retenhamo-nos no conceito de ano novo. Um ano que substitui o velho. Um velho que deixa o lugar a um ano novo, que está prestes a nascer. 

Pois bem, esqueçam todos os clichés. 
 
O Ano que aí vem já está morto. 2011 fez o favor de o estrangular no ventre. 2011 foi um pai bêbedo que espancou a mãe e cortou o acesso de oxigénio ao filho. 2012 virou dentro da mãe e enrolou o cordão umbilical à volta do pescoço. Já deixou de receber oxigénio há uns 4 meses e basicamente vai nascer um vegetal ou um atrasado mental. Mais ainda, sendo filho de um calendário cristão não o podemos abortar. 2012 vai crescer com insuficiências físicas e mentais graves e vai agonizar até ao fim da sua vida. Mais ainda, como também não vai usar contraceptivos irá gerar um filho igual. Também não auguro nada de bom para 2013.


Que podemos nós fazer? Nada. A não ser tratá-lo o melhor possível dado a sua condição. Mas a verificar pelo passado, o mais provável é que o deixemos cair de cabeça no alcatrão.

E para aqueles que de sobreaviso criam mensagens como esta:

Well... It's allready fucked up and it's not even born yet bitches.

2012 vai ser o filho vegetal em que ninguém vai poder desligar a máquina.

Deal with it. Medina Carreira style.

Bom ano novo!

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Paga impostos e cala-te c*ralho!

Portugal tem a sua quota parte de velhinhos taralhocos. O que em si não tem nenhum problema. O problema surge quando os velhinhos taralhocos são directores de jornais, presidentes de regiões autónomas, ou, neste caso, um dos 25 mais ricos de Portugal.

Américo Amorim, magnata da cortiça e negócios vários, que ainda há um mês chegou ao topo da lista das 25 maiores fortunas deste rectângulo de calhaus e arbustos à beira atlântico plantado, com a bonita soma de 2.587,2 milhões de euros, "não se considera rico, apenas um trabalhador."

Esta resposta foi dada no contexto dos milionário franceses, e a seguir à sugestão de Warren Buffet, se oferecerem também eles a pagar uma sobretaxa de imposto, de modo a suprimir alguma da desigualdade entre classes.

Américo Amorim disse peremptoriamente ao jornalista do Jornal de Negócios:

"Eu não me considero rico", afirmou Américo Amorim ao Negócios. "Sou trabalhador", contrapôs. E pronto, conversa acabada. Para a matéria em apreço, o cognominado "rei" da cortiça garante que não passa de um simples assalariado."

Ora independentemente da latente hipocrisia, ou não, de Warren Buffett ou do acto de prevenção de culpa e lavar a água do capote dos empresários franceses, o que está em causa nas declarações de Amorim, e até mesmo o modo como as profere em tom definitivo para terminar o assunto, é um sintoma muito português, fruto de um contexto cultural muito específico.

As declarações de Amorim não são mais do que um paternalismo corporativista que o Salazar impôs às elites nas lides com a populaça. E como se pode ver pelo exemplo, está mais forte do que nunca. "Eu sou um um modesto trabalhador..." é o voltar àquela altura em que o importante era trabalhar e calar e não vir com ideias parvas. Amorim acredita piamente que se está onde está é porque trabalha para isso. Está a esquecer-se que não é ele que trabalha. São os seus assalariados. E foi á custa da exploração desses assalariados e de negócios obscuros na cortiça que Amorim hoje é "um mero trabalhador" com uma fortuna de mais de dois mil milhões de euros. Numa república bolchevique lusitana o Amorim era o segundo na fila para o fuzilamento colectivo na Praça do Comércio, logo a seguir ao Luís Delgado...

Amorim não é rico. Pois bem, não vamos perder tempo a debater os limite e a sua aplicação ao conceito de riqueza e de onde e para onde eles se alargam. Comparado com Warren Buffett não será rico, será desenrascado. Mas Amorim não vive nos estados Unidos, vive em Portugal. E se é um mero trabalhador então é igual a nós. E eu, que sou um mero trabalhador vou ver o meu subsídio de Natal cortado a metade. Gostava de ver o subsídio de natal cortado a metade também ao Amorim. 

Por isso Amorim, paga e cala-te c*ralho...






terça-feira, 26 de julho de 2011

Conversas Surreais

O estado do país reflecte-se nestes pequenos fait divers quotidianos:

Toca o telefone:
*triiiimmm*

EU: - Estou sim, Apoiar boa tarde, fala Humberto Silva

GAJO DO OUTRO LADO: Olá boa tarde, fala de uma oficina. É a primeira vez que estou a trabalhar com vocês, e tenho aqui um sinistro...

 EU: - Provavelmente é engano, fala de uma associação...

GDOL: É que quero falar para uma seguradora, tenho aqui um sinistro

EU: - Certo - de boa fé - deve querer falar para os Seguros da Crédito Agrícola - com experiência de enganos anteriores.- É que esse número que aí tem não é da CA

GDOL: Mas é o número que tenho aqui, portanto quero participar um sinistro.

EU: Pois, mas não é esse, não fala da CA, fala de uma associação

GDOL: Então se calhar é convosco que tenho de falar...

EU: - Não, qual é a seguradora que aí tem?

GDOL: (rebusca papéis) Caixa de Crédito Agricola Seguros e tem este número

EU: Pois... Mas o número está errado. Não é dessa seguradora, está a ligar para uma associação...

GDOL: Mas é o número que tenho aqui, que é que eu faço agora.

EU: Tem de procurar o contacto certo... (duh...)

GDOL: Mas é este o número que tenho aqui. E agora tenho de participar este sinistro. olhe que quem se prejudica é o cliente

EU: Pois... mas como lhe disse não fala da seguradora. Nós não sabemos do que fala nem temos a ver com isso.


GDOL: Mas é o número que tenho aqui

EU: (perdendo a paciência, não os podes vencer, junta-te a eles) Oiça, mas o que quer afinal. Quer falar com o meu supervisor, é?

GDOL: Sim, passe ao seu supervisor se faz favor...

(...)

Há muito a dizer de um país onde mais facilmente se acredita que se está a ser enganado por um operador de call center do que por uma gralha tipográfica...

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Coisas a fazer se ganhasse o euromilhões

Esta semana o Euromilhões saiu a um gajo qualquer que não a mim. Depois de angustiar sobre a razão dessa tragédia decobri que não saiu porque não joguei.

Ora se jogasse e me saíssem 185 milhões de euros eis uma lista de coisas que faria:

  • Comprava veados à Câmara Municipal da Nazaré
  • Comprava a Moodys e avaliava carne de veado
  • Mandava alcatifar Portugal (props ao Manuel João Vieira)
  • Fechava o país para balanço
  • Nas partes não alcatifadas plantava uva e medronho
  • Criava uma indústria de alambiques de exportação de bagaço para um qualquer país da América do Sul
  • Pagava a um pequeno exército de mercenários para invadir esse país
  • Fazia lá uma criação de veados
  • Vendia os veados à Câmara da Nazaré
Ainda me sobravam uns trocos para uns caracóis e imperial

P.S. Este Verão tem sido anormalmente frio. Algo se avizinha. Vou perguntar ao Medina Carreira